A Creator Economy ajuda a explicar o embate entre livros e telas

Foto: @thaiscrissilva_/Pinterest
Outro dia, rolando o feed infinito, me deparei com um vídeo de um colunista do The Times alertando sobre o que seria a “Era da Pós-Literatura”. Eu já estranhei de cara, porque esse negócio de “vivemos na Era de tal coisa” é sempre apocalíptico e quer fazer uma baita crítica social foda em 90 segundos – sei que a YOUPIX também não gosta desses termos definitivos e generalistas, rs.
Mas achei interessante a bola levantada: estamos lendo mais ou menos livros? No vídeo, o colunista do Times e escritor James Marriott, que foca seu trabalho no impacto da tecnologia na nossa cognição, e no declínio do hábito de leitura, fala sobre um estudo feito no Reino Unido sobre adultos serem mais propensos a lerem posts em redes sociais do que qualquer outro conteúdo.
Faz sentido, né? Mais ou menos. Generalizando, sim. Talvez dentro da sua bolha, também. Mas só os dados podem sentenciar as nossas análises de boteco. O James mostra estudos que apontam pra queda no número de leitores no Reino Unido, mas isso não necessariamente reflete a realidade brasileira.
O fenômeno do BookTok
Se você é leitor da YPX News, viu na edição #49 o caso da gringa que se apaixonou por Machado de Assis a partir de um desafio de leitura que propôs pra si mesma. Quando ela postou o relato sobre o quão encantada ficou com as obras do escritor brasileiro no Tik Tok, ela provou o gostinho do que é a brazilian storm nos comentários do vídeo. O molho brasileiro foi tão grande, que até a novela Chocolate com Pimenta ela começou a ver – santa Era do Streaming.
Quem é mais ligado no Tik Tok sabe que esse crescimento no hábito da leitura, entre usuários da plataforma, não é de hoje. O fenômeno do BookTok é incrível porque as pessoas compartilham as histórias como se estivessem contando pra um amigo – tudo que a audiência busca nos creators. Pra quem é mais cabeçudo em Creator Economy, a lógica é a mesma da publicidade: um produto indicado por um creator que parece amigo da sua comunidade tem muito mais chance de conversão (e construção de marca, ainda que indireta) do que o velho merchan.
Vamos aos dados: a DW fez uma reportagem apontando que, de 2024 pra 2025, o Brasil ganhou 3 milhões de novos consumidores de livros. A pesquisa Panorama do Consumo de Livros, realizada pela Câmara Brasileira do Livro em parceria com a Nielsen BookData, indicou que 18% da população comprou ao menos um livro em 2025 (aumento de dois pontos percentuais em relação ao ano anterior).
O maior crescimento foi registrado entre os jovens adultos, de 18 a 34 anos, que avançaram 3,4 pontos porcentuais em comparação ao registrado 2024.
Apesar de vivermos contextos diferentes no Brasil e no Reino Unido, dá pra afirmar numa boa que o tempo de tela é um problema global. Mas não é só dos jovens, tá?
“Quase metade dos adolescentes dizem que seus pais às vezes se distraem com seus telefones durante conversas, de acordo com uma pesquisa do Pew Research Center. No entanto, apenas 31% dos pais admitem fazer isso”, apontou uma matéria da Exame.
E basta observar o seu contexto social: tirando os pais xalalá, hoje em dia os mais velhos foram tão cooptados pelas telas, senão mais, do que os próprios jovens que nascem com um celular na cara.
No entanto, muita gente tenta enfiar a produtividade na leitura.
O Pequeno Príncipe. Acho que todo mundo que compra um livro e estabelece meta de leitura, ou só busca títulos que falam sobre mindset, sobre como ficar milionário ou qualquer outro desses bobinhos que se acham descolados por meter um palavrão na capa… devia ler o Pequeno Príncipe.
Isso porque TUDO precisa ser performático nessa “Era da Produtividade” – aí sim faz sentido o termo, porque quem não se acha em débito no trabalho ou estudos provavelmente tá vivendo no mato e sem celular. Não basta ler, eu tenho que ler pra aprender algo. Não basta ler um pouquinho por dia, em momentos diferentes, eu preciso ler X páginas por dia, pra terminar o livro em Y tempo e publicar, em dezembro, que li Z livros neste ano.
Ao invés de atribuir um novo compromisso a si mesmo, que tal escolher sim um livro pela capa, ou pela indicação de um amigo ou BookToker, pelo puro prazer de ler? Qualquer pessoa com uma vida online registra horas de tempo de tela em um único dia – e ficar no zap fofocando também é tela, tá? Trocar 10 minutinhos por ler duas ou três páginas podem fazer um bem danado pra gente naquele dia e à longo prazo. Um comentário no vídeo do James pode te incentivar:
“Excelente iniciativa! Ler 10 minutos por dia pode fazer maravilhas pela nossa compreensão do mundo, das nossas emoções e nos ensinar empatia e tolerância, além de outros benefícios.”