
Em 2006, eu me formei na faculdade de Comunicação Social na minha primeira habilitação, em Rádio e Televisão, cheia de certezas e verdades absolutas que só uma jovem de 21 anos tem a ingenuidade de ter.
Enquanto isso, no mundo, nós víamos os primeiros vislumbres das bases que sedimentaram o cenário atual da humanidade conectada. Foi o ano da fundação do Twitter, sendo o primeiro “tweet” enviado por Jack Dorsey em março. Na época, ninguém imaginava que a rede do passarinho azul mudaria a comunicação global. O Google comprou o YouTube apenas um ano após sua criação por US$ 1,65 bilhão — um valor que, na época, parecia astronômico! E uma curiosidade de bônus: a revista Time escolheu “Você” (You) como a Pessoa do Ano. Foi uma homenagem ao crescimento do conteúdo gerado pelos usuários na internet (blogs, YouTube, Wikipédia).
2006 também foi o ano do primeiro filme de O Diabo Veste Prada, que fui ver no cinema na estreia. O filme marcou toda uma geração de mulheres absurdamente impactadas e influenciadas pelas revistas de moda, ainda absolutas dentro de um universo que se restringia ao Orkut e ao Facebook como mídias sociais, e onde criadores de conteúdo e influenciadores estavam em uma fase anterior à de um embrião. O grande diferencial da história é a dinâmica das personagens Miranda Priestly, interpretada por ninguém menos que a já icônica Meryl Streep, e Andrea Sachs, vivida por uma ainda bem jovem Anne Hathaway.
As personalidades das duas protagonistas eram parte central do enredo. A de Miranda era marcada pela frieza pragmática que só costumava ser reconhecida em personagens masculinos. Ela foi, e ainda é, inspiração para muitas de nós por ser “fodona”, viciada em trabalho e absurdamente obstinada. Sua vida pessoal aparece em um plano tão secundário que só temos vislumbres dela quando são retratados os danos colaterais de sua vida profissional cobrando o preço. Além disso, na geração dos Boomers/X, a única maneira de uma mulher ser bem-sucedida era emulando um homem, e isso com certeza abriu caminho para outras mulheres que não cogitavam ocupar nada além dos espaços domésticos que as limitavam até então.
A vida que Meryl deu a Miranda – inspirada em Anna Wintour, editora da revista Vogue por décadas – e a verossimilhança com que o filme tratou o mundo da moda fizeram com que a obra alcançasse o título de “clássico” dentro de seu nicho. O que não parecia muito real era Andy: seu deslocamento, sua ingenuidade e a maneira como ela caiu de paraquedas no emprego dos sonhos de infinitas outras mulheres, sem nem valorizar o lugar que ocupava. Andy era uma sonhadora incorruptível em um mundo ceticamente comprometido de valores.
Esse final de semana fui assistir à sequência, apesar de ter lido críticas duras à continuação e nem ao menos ser tão fã assim do primeiro. Em uma entrevista de divulgação, Meryl falou sobre como o primeiro filme foi lançado em junho de 2006, enquanto o primeiro iPhone, um dos marcos da revolução da conectividade, foi lançado em janeiro de 2007. A atriz usou esse fato para ilustrar como a Miranda Priestly do primeiro filme operava em um mundo “analógico”, onde as revistas ainda detinham o poder absoluto da informação, antes de todo mundo carregar um computador e uma câmera no bolso 24 horas por dia. Que loucura pensar que, em apenas 20 anos, demos esse pulo tecnológico que transformou absolutamente tudo o que conhecemos.
Não vou passar spoilers, mas a fórmula do primeiro é relativamente copiada. Andy agora, 20 anos depois, é uma jornalista de sucesso. Leia-se: ganhou prêmios por escrever histórias sérias, mas que interessam a muito poucas pessoas e se convertem em poucos clicks, a grande commodity de valor moderno. Mesmo trabalhando como a Miranda em número de horas, mora num muquifo em Nova York. Ela é demitida num lay off na primeira cena do filme, já trazendo a crítica de como o jornalismo foi um dos setores mais afetados por tudo que mudou nos últimos vinte anos. Um belo exemplar de millennial para quem venderam que, se trabalhasse muito, a meritocracia traria seus frutos – frutos que muitos de nós nunca vamos, de fato, colher.
Miranda segue sendo Miranda, e tenho certeza de que continuará inspirando muitas mulheres a serem como ela: elegantes, impiedosas e assumindo o papel de protagonista destemida e poderosa que, infelizmente, segue sendo majoritariamente masculino, na vida e nos filmes. Vemos pequenos vislumbres de uma suavização de sua personalidade em momentos com o marido, com o colega de trabalho de anos e ao se ver vulnerável quando uma consultoria entra em cena para “melhorar” o desempenho da empresa. Enquanto isso, Andy também se mostra obstinada e resiliente, mas sem deixar de costurar relações humanas pelo caminho. Em um momento crucial, ao decidir tomar uma atitude que a faria ganhar dinheiro e prestígio, ela escolhe não comprometer seus valores.
Recentemente li o livro “Atmosfera” da Taylor Jenkins Reid. Durante toda a leitura tinha algo que me tocava na Joan, a personagem principal, uma das primeiras astronautas na década de 80. O livro é uma ficção, inspirado no contexto histórico das primeiras mulheres cientistas e astronautas da NASA durante os anos 80, destacando o papel feminino na exploração espacial e o apagamento histórico dessas profissionais. Joan é sensível, emocionada e se preocupa com os outros. Ela também é colocada em contraponto com uma colega que emula o comportamento dos seus pares homens e se coloca como obstinada e dura para pertencer. Claro que em 1980 muito provavelmente Joan teria sido engolida por um mundo que ainda não tinha sido pavimentado por outras Mirandas que estavam apenas começando a surgir. Mas na ficção e como representatividade para os dias atuais, a humanidade de Joan faz dela uma líder empática ao mesmo tempo competente e eficiente, não se importando em chorar em momentos críticos e admitir que vomitou por 72 horas na sua primeira missão.
Atualmente, temos o privilégio de poder nos inspirar em “Andys” e “Joans”, entendendo que foi graças às “Mirandas” que elas puderam desenvolver suas narrativas, ainda que fictícias. Em 2006, eu era uma recém-formada como Andy, querendo ser jornalista. Entrei na faculdade com o sonho de trabalhar em um jornal impresso, meus caros. Troquei a as redações porque percebi cedo que elas estavam fadadas a se reinventar. Fui para o mercado corporativo aos 26 anos, mas até hoje, em um mundo que nos pede para sermos Mirandas, eu tento ser uma Andy e uma Joan. Não porque não saiba ser ou não admire partes importantes da Miranda, mas porque ainda acho que socialmente precisamos de mais mulheres vulneráveis que saibam se posicionar e ocupem espaços de liderança, em vez de versões masculinizadas que reforcem a ideia de que, para ser “foda”, é preciso parecer um estereótipo de homem bem-sucedido.
Em 20 anos, o mundo deu um “duplo twist carpado”, e o que ainda temos de mais incrível por aqui são as pessoas com quem nos conectamos na vida real. Quando tudo descamba, o que vale são as pessoas que se importam, porque nossas maiores crises estão estacionadas em desvalorizar o patrimônio humano das nossas equações diárias.
Fabi Froes trocou o jornalismo tradicional pela revolução do YouTube, onde atua há mais de uma década entre parcerias e RP de crise. Autora de “Mediocridade: Crônicas de uma Mãe Millennial em Busca do Ordinário”, Fabi é mãe da Mia e do Nuno, corredora nas horas vagas e colecionadora de carimbos no passaporte. Entre um café e uma Coca Zero, busca o equilíbrio entre o caos da vida profissional e o prazer despretensioso de um projeto DIY.
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