
O South by Southwest 2026 encerrou sua edição com uma mensagem que não estava nos painéis oficiais: a transição que o mercado de tecnologia vinha anunciando há anos já chegou, de forma prática e irreversível. Em Austin, visitei a Meta, tive contato com a Cognition, startup que desenvolve agentes de IA capazes de executar ciclos completos de programação de forma autônoma, e voltei com a convicção de que quem ainda trata a inteligência artificial como tendência de médio prazo está tomando decisões com o mapa errado.
As ruas de Austin já mostram o futuro. Só para dar alguns exemplos, carros com tecnologia da Waymo circulavam sem motorista em corridas por aplicativo e a Tesla está construindo uma fábrica de dois quilômetros para produção de robôs humanoides de usos variados, incluindo tarefas domésticas.
Enquanto isso, a Meta anunciou que vai investir US$ 600 bilhões em novos produtos nos próximos dois anos ao mesmo tempo em que reduz o quadro de funcionários. Não é uma companhia em dificuldade cortando custos. É um negócio em expansão redirecionando capital humano para capital computacional. Nos Estados Unidos, mais de 45 mil postos em tecnologia foram eliminados só em 2026. Os cortes estão concentrados em cargos de entrada em programação e tarefas repetitivas, exatamente o que os agentes de IA já executam.
Na Cognition, o cenário ficou ainda mais perceptível. A empresa entrega em dias o que times humanos levariam semanas para construir. E não estamos falando de experimentação, mas de produtos reais, em operação. Acredito que o mercado para desenvolvedores não vai desaparecer, mas se dividirá em dois grupos com trajetórias opostas. Um formado por profissionais seniores capazes de orientar agentes de IA e assumir responsabilidade por decisões técnicas complexas, que terão demanda crescente. Outro de quem executa tarefas repetitivas, que enfrentará uma pressão cada vez maior.
Esse cenário faz parte de um movimento que chegou a ser apelidado de “apocalotimismo”, um misto de apocalipse com otimismo, que fala da coexistência entre o entusiasmo com os ganhos de eficiência da IA e o temor pela obsolescência de funções até então executadas essencialmente por mãos e mentes humanas. Não é pessimismo nem euforia. É a consciência de que uma mudança real está acontecendo.
Para o ecossistema de tecnologia, o alerta que fica é de que precisamos recalibrar para ontem a cadeia de formação de desenvolvedores. Universidades e programas de requalificação precisam preparar profissionais para o mercado que está se formando, não para o que existia há três anos. Empresas que incorporarem agentes de IA ao desenvolvimento de produto ganharão velocidade de entrega que antes parecia inacessível. Isso vale tanto para startups quanto para as operações locais das Big Techs.
Não voltei de Austin pessimista, pelo contrário, trouxe mais clareza na bagagem. O alerta do SXSW não é para entrar em pânico. É para parar de tratar a inteligência artificial como tema de evento e começar a tratá-la como variável central de negócio. O Brasil tem empresas competitivas, talentos e ecossistemas de inovação em expansão. A pergunta que trago de Austin é: se as maiores empresas do mundo já estão operando na nova lógica, quanto tempo o mercado brasileiro ainda tem para escolher entre liderar essa transição ou ser reorganizado por ela?
Walmoli Gerber Jr.
Vice-presidente de marketing da Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE)
Direto do SXSW 2026, em Austin
walmoli@brasilrad.com.br