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O Protagonismo do Fandom e a Redenção de Justin Bieber

Por que a performance no Coachella 2026 diz mais sobre a nossa sociedade do que sobre a música. Por: Fabi Froes.
Kevin Mazur/Getty Images

Esse foi o primeiro final de semana do Coachella 2026 que, de acordo com uma busca rápida no Google, é um dos maiores e mais influentes festivais de música e arte do mundo, realizado anualmente no deserto de Indio, Califórnia. Conhecido por ditar tendências da cultura pop e da moda, o evento se destaca por line-ups diversificados que incluem pop, rock, eletrônica e hip-hop.

Lembro-me de, em 2009, na época dos blogs de moda, esperar os posts do que a galera tinha vestido por lá – uma moda meio boho chic que, na época, tinha como um dos grandes expoentes a Sienna Miller, minha ícone de estilo até hoje. Eu ficava um tempo caçando e consumindo os posts, vivendo a experiência remota de ver bandas incríveis e pessoas, famosas e desconhecidas, vestidas com roupas que pareciam apropriadas para existirem apenas naquele espaço-tempo.

Há mais de uma década o YouTube faz a transmissão ao vivo do festival, levando essa fenda espaço-temporal e cultural da Califórnia para o resto do mundo; inclusive, eu localizo o blogspot para o blog oficial da plataforma todo ano no Brasil. As imagens estáticas dos blogs que eu seguia em 2009 viraram uma experiência cada vez mais imersiva, com a possibilidade de assistir aos palcos ao mesmo tempo dentro de um mosaico na TV e também com criadores que têm acesso ao festival e fazem um Watch With dentro de seus canais.

Mas, neste domingo, vi algo diferente na minha timeline do Instagram quando acordei. Ela estava inundada por muitos vídeos de fãs – inclusive disponibilizados por mídias tradicionais como Bustle e Variety – do Justin Bieber fazendo seu primeiro set como headliner do primeiro sábado do festival. Ele se apresenta de novo no final de semana que vem, e as negociações feitas diretamente por ele como artista independente resultaram no maior cachê da história do evento. Em um dos spots mais premium do festival, ele trouxe vídeos antigos seus do YouTube e cantou junto com o “ele” do passado. Quando acordei às 5h40 da manhã, hábito que me persegue mesmo quando as crianças dormem na casa da avó, pois meu corpo está super acostumado a despertar com as galinhas e segue o fluxo, ainda não haviam saído os melhores momentos oficiais no canal do Coachella.

No mundo onde o fandom já assumiu a primeira fileira do protagonismo de consumo e produção de conteúdo, já havia uma quantidade de vídeos tão numerosa que não era possível chegar ao fim do scroll: o canadense em seu moletom rosa de capuz, na frente de um computador em um dos maiores palcos do mundo, catalisado por uma transmissão ao vivo que leva, de fato, esse palco para o mundo todo. Ele estava ali, despido de grandes produções, se colocando num papel de vulnerabilidade e resgate de quem ele foi e que, durante muito tempo, também foi execrado por ser. O menino que começou cantando Baby — que por muito tempo, enquanto o YouTube contabilizava o número de dislikes de maneira pública, foi o vídeo com mais “não gostei” da plataforma — e fazendo cover de With You, do Chris Brown, num vídeo caseiro que data de 18 anos atrás.

Eu me emocionei. Primeiro porque sou uma emocionada; segundo porque achei a performance de uma certa pureza. Um cara hoje com 32 anos, que está no spotlight desde os 12 e foi catapultado ao estrelato aos 15, julgado pelos olhares do mundo todo, com relações familiares complicadas e relacionamentos amorosos sempre acompanhados de perto pela mídia. Longe de mim passar pano para astros da música que vieram até ao Brasil pichar muro ou ser expulso de hotel por causar tumulto, entre outras alegações, mas o quanto são recorrentes os casos de crianças e adolescentes que, sem nenhum repertório de vida, são jogados no olho do furacão da audiência e da opinião pública? São engolidos e cuspidos do outro lado famosos, ricos ou falidos, mas, em geral, sem nenhuma saúde mental. O Justin estava ali, ele, seu microfone e um computador, trazendo para todo mundo quem ele era e, em algum nível, ainda é. Me trouxe um pouco de paz ver alguém fazendo pazes publicamente com o próprio passado.

No mesmo dia, resolvi pegar minha manhã e assistir ao novo filme do Keanu Reeves, Consequência (Jonah Hill, 2026). A produção da Apple TV narra a história de um ator sóbrio, também catapultado ao estrelato ainda criança, que precisa confrontar seu passado para sobreviver a uma chantagem. Em um momento, ele vai ao programa da Drew Barrymore, que interpreta ela mesma. Antes da entrada ao vivo, ela fala que sempre se identificou com ele porque sabe o quão difícil é estar nos olhos do público desde sempre, ter um momento de fundo do poço e drogas, e estar constantemente se perguntando por quem e por que está fazendo aquilo tudo. Meu paralelo veio na mesma hora com o setlist de Bieber e a vida dele, e de tantas outras pessoas que começaram cedo e foram mastigadas pelo próprio meio que as criou. Isso no meio de discussões e regulações com relação às crianças e adolescentes, e um marco tão importante que é o ECA Digital, aprovado no final do ano passado. 

No fundo, esse modelo é responsabilidade de muitos atores sociais e vejo passos relevantes sendo tomados por esses protagonistas, mas, hoje em dia, como mãe, vejo o tamanho do papel que nós, cuidadores, temos nisso. Em uma fala do personagem do Keanu Reeves, ele está tentando se desculpar com a mãe, protagonista de um Reality Show que grava tudo enquanto eles conversam, e ela diz a ele: “Eu te dei tudo o que você e todo mundo queria, mudei minha vida toda por você, para podermos ir a testes e você seguir com sua carreira”. E ele responde: “Eu era uma criança, eu não sabia o que eu queria”. Se nem nós, adultos, sabemos o que é melhor muitas vezes, que dirá mini-humanos em formação.

De novo, não acho que a conta é toda dos pais; o sistema como um todo tem um papel em evitar que esses humanos sejam amassados pelo processo de crescer no spotlight. Todo mundo tem responsabilidade, exatamente por isso não adianta achar um só inimigo para culpar, ou teremos um cobertor bem curto para endereçar o problema como um todo. Mas ver o Justin Bieber ali, na metonímia de navegar o YouTube com a audiência presente e plugada pela mesma plataforma na qual ele foi descoberto duas décadas antes, vendo seus próprios vídeos, trouxe-me a pureza de várias pontas se fechando de maneira esperançosa.


Por: Fabi Froes
Ela trocou o jornalismo tradicional pela revolução do YouTube, onde atua há mais de uma década entre parcerias e RP de crise. Autora de “Mediocridade: Crônicas de uma Mãe Millennial em Busca do Ordinário”, Fabi é mãe da Mia e do Nuno, corredora nas horas vagas e colecionadora de carimbos no passaporte. Entre um café e uma Coca Zero, busca o equilíbrio entre o caos da vida profissional e o prazer despretensioso de um projeto DIY.

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