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Gen Z em pauta: as críticas dos mais velhos são justas, ou não passam de projeção?

X e Millenials também enfrentaram o discurso de que estavam “nem aí”

Arte: Bandaura MixLab

Há alguns anos, uma amiga da primeira leva de Millenials contou que, na empresa onde ela trabalhava, rolou um processo seletivo com duas candidatas que chegaram até o fim empatadas: uma delas visava o trampo por ser em uma empresa sólida e com um salário acima da média para uma estagiária. Se lhe faltava alguma especialização, seu diferencial era o empenho e a vontade em agarrar aquela vaga. Do outro lado, competia uma menina que teve um estudo melhor, era fluente em inglês e estava matriculada em uma faculdade melhor. 

Minha amiga, responsável pela contratação, indicou ao superior que o melhor nome era o da menina mais esforçada, ainda que não tivesse um CV tão brilhante. Mas adivinha quem o chefe quis? Of course que a bonita que falava inglês. Até aí, um cenário que você deve imaginar ser bem comum, já que enquanto o diferencial dos Millenials era um curso superior, da Gen Z virou falar outro idioma. 

Em menos de 3 meses, a menina que falava inglês se demitiu. Não fez corpo mole, nem discutiu. Apenas pegou sua bolsa chiquérrima e saiu de cena, porque não falou um good morning no período em que esteve na função. Aqui cabe aquele meme “📍Xique-Xique/Bahia”, porque assim: essa menina nunca ia falar inglês numa empresa que atua só em uma região do Brasil, numa vaga que não requer diálogo com outras empresas e pra um cargo de estagiária. 

Toda essa volta pra explicar, pra quem ainda não sacou, que foi justamente a pressão dos pais X e Millenials que subiu o sarrafo pra Gen Z. Como falamos ali em cima: estudo completo e ensino superior não são mais diferenciais, mas sim o básico. E, pra Gen Alpha, nem o inglês destaca mais em meio a uma multidão de pessoas qualificadas, que não encontram o que julgam ser um emprego a altura. 

No fim do mês passado, a atriz Ingrid Guimarães escreveu uma coluna no Jornal O Globo cutucando as “opressões” que a Gen Z luta contra, mas diz ter sido enganada no momento em que passou a trabalhar com pessoas dessa geração. Que já foi “chamada de tóxica porque mandou uma mensagem no sábado confirmando uma reunião na segunda”.

Morde…

A atriz parece enxergar que a Gen Z se colocou dentro de uma redoma de vidro, onde é preciso zelar por aquele ser delicado, isolado do mundo externo frio, cruel e que oprime com mudanças de prazo, chefes tóxicos e jornadas abusivas. Enquanto isso, a geração dela conviveu com a gastrite como algo normal e sequer tinha recurso pra entender que um chefe escroto não podia agir assim. Não tinham as plataformas que amplificam vozes e denunciam assédios no ambiente de trabalho. Aliás, nem o assédio era visto como um problema. Realmente, deve ter sido uma merda. 

Mas esse tempo tenebroso foi passando e, como eu disse, o sarrafo subiu. Ao mesmo tempo, muitos empregos formais foram sucateados pela precarização das leis trabalhistas – ou por má fé de alguns patrões mesmo – o que empurrou uma galerona pra PJtização, por exemplo. É preciso ter o olhar de que nenhum contexto serve como regra pra todo mundo, mas, pra Gen Z, o discurso de que um diploma abriria portas infinitas foi amplamente difundido. Ao chegar no mercado de trabalho e perceber que não, o balde foi da água mais fria possível. Tanto preparo e estudo foi parece ter sido em vão.

Ganhando pouco, sendo mal valorizado e sem
perspectiva de deixar a casa dos pais antes dos
30, qual a motivação de um Gen Z pra permanecer
em um emprego que julga ser ruim?

O que não quer dizer que não tenha muita gente na Gen Z (com grana) que seja sim preguiçosa, porque sempre teve tudo de mão beijada, porque teve acesso às melhores escolas, porque se dói demais com qualquer bronca, porque é só abrir o TikTok que descobre um transtorno novo. 

Ingrid, aqui você foi certeira:

“Talvez o problema não seja a geração Z em si. Mas o mundo
virtual e isolado que eles cresceram. Gente que sabe se expressar por mensagem mas trava ao vivo. Que sabe dar nomes aos sentimentos,
mas não sabe lidar com eles.”

De fato, a Gen Z é a primeira geração que nasceu na internet. Ainda experimentou muito do mundo analógico, como poder usar lookinhos horrorosos sem medo da pressão da internet – naquela época, você desligava o computador e as redes sociais não iam junto com você. Como se não bastasse a conexão desde o berço, essa geração enfrentou o fim da adolescência e o começo da vida adulta, justamente quando a gente sai de casa, num isolamento social por conta da pandemia. 

Isso fez uma galera se sentir mais retraída e, quem já era mais introvertido, piorou de vez. Há uma década o tempo de tela não era tão alto quanto hoje e o consumo das redes era diferente. É justamente a Gen Z, quando entra no mercado de trabalho e passa a ter seu dinheirinho, somado ao feed infinito e o isolamento social, que mudaram completamente a Creator Economy, o universo da publicidade e o consumo. 

Segundo o IBGE48% da Gen Z é economicamente ativa. E boa parte dessa turma se importa com sustentabilidade e com a experiência na hora da compra, ao invés de simplesmente escolher uma blusinha qualquer. Essa geração tem muitas demandas e quer ser ouvida, como aponta esse trecho da nossa Newsletter do SXSW 2026:

O insight aqui é que a Gen Z não consome produtos, ela consome pontos de vista. Quando o CEO atua como Creator, ou a marca se comporta como um, ela ganha a “licença poética” para errar, brincar e arriscar, algo que o corporativismo mata. Ao invés do clássico “Compre agora!”, a marca ganha pontos dizendo “Sabemos que você está economizando, então aqui está como fazer nosso produto durar mais” ou “Aqui está como dividir esse custo com 3 amigos”.

Assopra…

Em uma coisa concordamos: precisamos de um meio-termo. Não dá pra se escorar em diagnósticos de TDAH feitos a partir de um vídeo no Tik Tok, ao mesmo tempo que, do mesmo jeito que a Gen Z se profissionalizou, o mercado precisa responder à altura. Sem perspectivas de comprar uma casa ou um carro, a qualidade de vida virou uma resposta imediata pra uma geração cansada de tanta tela. Viver bem, por enquanto, ganha de um emprego ruim, porque o presente virou mais importante que o futuro pra esses jovens.

E boa parte dessa treta toda não passa de discussão na internet, porque metade da Gen Z tá trabalhando, com ou sem TDAH. Do mesmo jeito que hoje precisamos ouvir, a geração da Ingrid também já chocou, provocou estranhamento e teve que ouvir dos Boomers. Seguimos, como nossos pais, não tem pra onde correr.

Ela termina o texto dizendo que, mesmo assim, continua admirando a Geração Z. Se diz feliz por ver uma geração que parece ter “nascido com um manual” que a sua geração nunca recebeu. É bom ser útil pra além de lembrar a senha do email dos nossos pais <3


Esse texto foi originalmente publicado na YPX News. Para se inscrever, clique aqui!

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